domingo, 25 de agosto de 2013

Após conhecer o pai, brasileira vai defender a Guiné-Bissau no Mundial de Judo

taciana lima judo guiné-bissau (Foto: Reprodução/Twitter)
Taciana com as bandeiras da Guiné-Bissau
e do Brasil (Foto: Reprodução/Twitter)

A judoca Taciana Rezende de Lima Baldé, de 29 anos, não terá vida fácil no Mundial de judô do Rio de Janeiro, que começa na próxima segunda-feira, no Maracanãzinho. Judoca do peso ligeiro (48kg), ela está na chave da atual campeã olímpica, a brasileira Sarah Menezes. Nascida em Olinda, em Pernambuco, e morando há anos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Taciana é uma brasileira genuína, mas defenderá outro país na competição: a Guiné-Bissau. E a opção da atleta de competir por outra bandeira tem tudo a ver com seu pai, que é do país da costa ocidental da África, colônia de Portugual, com 1,5 milhão de habitantes e uma grande variedade de etnias.
A história é bastante curiosa e remete aos anos 80. Naquela época, o jovem Óscar Suca Baldé, que veio da Guiné-Bissau para fazer faculdade de Engenharia no Brasil, conheceu a mãe de Taciana. Os dois se apaixonaram, e a moça engravidou. Mas, ao término dos estudos, o africano precisou voltar para seu país. Com o tempo, os dois perderam completamente o contato. Ele nem ao menos sabia o nome da filha e chegou a voltar ao país três vezes, mas não conseguiu contato, já que Taciana se mudou com a mãe e o padrasto para o Rio Grande do Sul.
Judô Taciana Lima com o pai (Foto: Reprodução/Facebook)
Taciana (sorrindo com medalha de cordão preto) e o pai (de terno preto) (Foto: Reprodução/Facebook)
- Sou pernambucana. Meu pai estudou no Recife. Eles namoraram, e ela ficou grávida. Ele terminou a faculdade e voltou. Quando ela estava grávida, perderam contato. Viemos morar no Rio Grande do Sul porque meu padrasto foi transferido. Meu pai veio ao Brasil três vezes procurar, mas não achou - comentou a simpática Taciana.
Foi aí que, em 2007, ela teve um estalo. E se buscasse o nome do pai na internet? Como Óscar Suca Baldé foi ministro da Pesca em seu país, não foi difícil encontrá-lo. Ela entrou em contato com a embaixada e, no dia seguinte, conseguiu falar com ele pela primeira vez. A emoção e a expectativa de encontrá-lo pessoalmente foram alimentadas por conversas virtuais e por telefone até dezembro de 2012, quando, finalmente, Taciana viajou à Guiné-Bissau para passar o ano novo com seu pai e conhecer o país.
- Em 2007, eu achei na internet porque ele foi ministro. Liguei na embaixada. No outro dia, eu consegui falar com ele por telefone. A gente só se viu em dezembro de 2009. Passamos o ano novo juntos para que eu pudesse conhecê-lo pessoalmente e também o país. Se ele soubesse meu nome antes, colocaria na internet e me acharia fácil, porque luto desde 1998. Mas ele não sabia - lamentou a judoca.
Taciana Lima na luta de judô (Foto: Fotocom.net)
Taciana Lima, que já defendeu o Brasil, agora é Guiné-Bissau (Foto: Fotocom.net)

Na Guiné-Bissau, Taciana foi apresentada a uma nova cultura e a uma realidade completamente diferente no esporte. Quase não há praticantes de judô por lá. Para se ter uma noção, o país teve apenas quatro atletas em toda a sua delegação nas Olimpíadas de Londres, no ano passado. Em março de 2013, surgiu a ideia da naturalização. Afinal, a judoca, que nunca foi aos Jogos pelo Brasil, poderia ter mais chances do outro lado do oceano. Mais do que isso, os habitantes do país africano têm agora a chance de ter um ídolo.
taciana lima judo guiné-bissau (Foto: Reprodução/Facebook)
Com quimono da Guiné-Bissau, Taciana se
prepara para torneio (Foto: Reprodução/Facebook)
- Conheci a cidade, a história do país. Eles não possuem exemplos esportivos, não tem cultura esportiva. Você fala aqui da ginástica, tem algum atleta referência, do vôlei, da natação, também. Fui para lá com o intuito de conhecer meu pai. Em março, decidi que podia unir o útil ao agradável - disse Taciana.
Dois anos depois de ser flagrada em um exame antidoping, ela deu a volta por cima subindo ao topo do pódio no Campeonato Africano de judô, disputado em Moçambique, em maio deste ano. Além disso, levou o European Open, em Lisboa. No primeiro caso, ela sentiu na pele a emoção de ser idolatrada pela torcida. Taciana conta que recebeu mensagens e o carinho dos fãs da Guiné-Bissau.
A emoção foi grande também ao possibilitar que eles escutassem o Hino do país em uma competição esportiva. E a identificação a impulsionou a já fazer planejamentos para o país no futuro. Quando se aposentar dos tatames, fará um projeto para dar aulas de judô para crianças na Guiné-Bissau.

- Foi a primeira coisa que passou na minha cabeça. Lá você não vê as pessoas praticando judô, nem nada. A educação física deles na escola é ginástica. Eu penso sim em montar um projeto lá para na Guiné-Bissau para crianças no futuro - concluiu Taciana.
A judoca de Guiné-Bissau compete no Mundial de judô do Rio já na próxima segunda-feira, quando os judocas das categorias ligeiro (48kg e 60kg) entram no tatame do Maracanãzinho. 

Um comentário:

  1. Muito orgulhosa dessa moça! Representando Guiné Bissau com muita raça! Parabénss...

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