sábado, 31 de agosto de 2013

Racismo à brasileira: Em Fortaleza, Andy Monroy – estudante caboverdiano – confundido com o próprio perigo

1.260 pessoas originárias de um dos cinco países da língua portuguesa na África vivem no Ceará. Entre estudantes e trabalhadores, eles sentem por causa da pele o preconceito escravocrata brasileiro
Andy Monroy, de 22 anos, saiu de Cabo Verde
para estudar na UFC (IANA SOARES)
22.08.2011| 01:30
“Cearense é cheio de graça. E isso é bom, o bom-humor. Mas existem brincadeiras maldosas. Quando você é o alvo, percebe mais fácil esse limite”, alerta o historiador especialista em África, João Paulo Có. Guineense, palestrante e estudante da Universidade Federal do Ceará. Atualmente, 1.260 pessoas originárias dos cinco países africanos de língua portuguesa batalham a vida no Ceará. Os dados são apurações da Polícia Federal e dão conta dos imigrantes registrados, não dos legais. A PF não soube precisar quantos deles são estudantes. Os números tampouco revelam a discriminação.
Andy é popular. Ostenta a cabeleira black power, uns óculos com aros pretos e o sorriso sempre a postos. Pelos corredores da Universidade Federal do Ceará (UFC), a simpatia negra do estudante cabo-verdiano faz alvoroço com as meninas e angaria as amizades. Mas Andy Monroy, aos 22 anos, não é o poço de satisfação espraiado pela superfície. Há quatro anos e meio em Fortaleza, convive dia após dia com o detalhe sempre lembrado pelos nativos: é negro.
“Quando cheguei, não dava conta da minha cor. Muito menos do estigma. Aqui pude me enxergar como diferente. A ignorância das pessoas veio de brinde, com o preconceito”. E também diz dos dias quando foi confundido com bandido, e preferiu passar o resto da semana em casa. “A gente busca o melhor pra gente, não ia sair pra ser maltratado”, admite.
Andava com bermudas e chinelos, quando viveu no Papicu, para evitar os ladrões, “porque o bairro é violento”. Então era confundido com o próprio perigo – algumas pessoas atravessavam a rua. Se vestisse jeans e polo, era assaltado. Há uns meses, procurava apartamento no Benfica. Bateu à porta da senhoria: “Estou interessado no quarto para aluguel”. Ela olhou para os lados e gritou: “Socorro!”. E o colocou para fora dali. Sem mais.
A UFC recebe 10% dos estudantes africanos de páises cuja língua materna é o português. O intercâmbio é possível graças ao PEC-G, desenvolvido pelos ministérios das Relações Exteriores e da Educação. São 66 cabo-verdianos, 43 guineenses, 8 angolanos e 8 são-tomenses em áreas de convívio universitário. Não há moçambicanos em intercâmbio agora. Conforme os alunos, dentro da universidade, o preconceito se manifesta mais velado.
O doutorando em engenharia civil pela UFC, Fernando Pedro Dias, 33, ressalta: “Acontece mais se o negro daqui acha que estamos tomando as vagas da cota, as vagas deles”. O mesmo estudante das exatas, nativo da Guiné Bissau, também chama atenção para outro tipo de discriminação: a negação da identidade do estrangeiro. “Eu me apresento: Fernando Pedro. E o cara prefere me chamar de moreninho. Esse não é o meu nome. Essa não é minha identidade. Eu nem moreno sou”. A piada pronta, pra Fernando, não tem graça.
O historiador guineense, João Paulo Có, identifica o fenômeno e o remonta ao passado colonial: “O negro desembarcava na América e, desde aquele primeiro momento, perdia a raiz. Deixava de se chamar como o chamavam os pares, recebia um número ou um nome europeu. O branco, hoje, continua com o costume de tentar construir, delinear o mundo do negro”.
FONTE: http://mariafro.com/2011/08/22/racismo-a-brasileira-andy-monroy-estudante-caboverdiano-em-fortaleza-confundido-com-o-proprio-perigo/

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