sábado, 29 de março de 2014

Luciana Santos, engenheira eletricista por formação, começou como secretária de Ciência e Tecnologia de Pernambuco

Luciana Santos, engenheira eletricista por formação, começou como secretária de Ciência e Tecnologia de Pernambuco. A parlamentar possui uma carreira política brilhante no estado, onde foi vereadora em Olinda, deputada estadual e prefeita por dois mandatos, entrando para a história como primeira prefeita comunista do país. Hoje, ocupando a cadeira de deputada federal, prepara-se para se tornar a primeira mulher a presidir o Partido Comunista do Brasil em quase 100 anos de existência. Sobre o feito iminente, o presidente do PCdoB no estado de São Paulo, Orlando Silva, declara: “Luciana é daquelas mulheres que reúne determinação e doçura”. Nessa entrevista exclusiva à Raça Brasil, a deputada fala de sua trajetória política e da façanha que está prestes a realizar. 

Conte-nos a sua história de vida e como a política entrou no seu caminho.


Sou filha de um negro com uma branca, meu pai foi operário, minha mãe foi dona de casa. Eles cresceram em um bairro operário de Recife, ambos foram militantes e, por causa do contato com o PCdoB desde criança, acabei me inclinando para o comunismo. Meu pai foi preso político, e a partir disso convivi muito com pessoas, armas e debates políticos. Recebíamos visitas de antigos militantes da resistência da ditadura, membros dos partidos de esquerda. Quando entrei na universidade, me deparei com a organização partidária do PCdoB, e de lá pra cá eu milito e sou filiada ao partido. Fui presidente do Diretório Acadêmico, diretora do DCE, vice-regional da União Nacional do Estudante, tudo isso enquanto cursava a graduação, sou engenheira eletricista, formada pela Federal de Pernambuco.


Uma das características da política brasileira, sobretudo nos estados do nordeste, são as famílias que mandam na política local desde sempre. A senhora teve que enfrentar alguma família dessas?

Aqui a gente enfrentou o PMDB, que não chegava a ser uma família tradicional da cidade, mas sua estrutura política na época era alinhada ao Fernando Henrique Cardoso. Nós tínhamos a liderança política pós-ditadura muito significativa, o Miguel Arraes, então Jarbas Vasconcelos se contrapunha a Miguel Arraes. Em 2000, antes de eu ser eleita prefeita, nós perdemos a eleição. Jarbas ganhou uma eleição de Arraes, e aí formou-se uma estrutura política e partidária que estava no Governo do Estado e que estava também na Prefeitura de Olinda. Foi contra essas forças que a gente conseguiu ganhar a eleição. Inclusive, na época a aliança era PMDB e PFL, não tinha DEM e PSDB. Eles diziam que era uma aliança para 20 anos de poder, até que em 2002 quebramos essa hegemonia.

A senhora foi a primeira mulher negra eleita como prefeita dessa cidade? 


Sim. Na verdade, na história de Olinda, só teve uma mulher antes de mim no comando: Brites de Albuquerque, esposa do donatário Duarte Coelho Pereira. Ela era colonizadora e dirigiu a capitania hereditária durante dez anos. Depois de Brites, teve a Jacilda Urquisa, que não era negra. Olha só, apenas duas prefeitas, contando comigo, em uma das cidades mais antigas do Brasil.

A senhora mais uma vez deverá entrar para a história, se tornando a quinta pessoa a dirigir o PCdoB em quase 100 anos, antecedida apenas por Astrogildo Perreira, Luis Carlos Prestes, João Amazonas e Renato Rabelo. Como tem sido esse momento?


Primeiramente, eu fico muito lisonjeada! Mas ao mesmo tempo tenho consciência da minha responsabilidade ao assumir um partido com as características do Partido Comunista do Brasil, um partido que se confunde com a história do povo brasileiro e existe desde 1922. Ele vivenciou diversos momentos históricos do Brasil, desde a Semana de Arte Moderna até a luta contra o Estado Novo. Depois, na década de 40, houve a resistência à Segunda Guerra Mundial, a resistência contra o nazismo, a busca pelo petróleo na década de 50, a luta para que o Brasil tivesse uma indústria nacional forte, que até hoje persiste, a heroica resistência à Ditadura Militar e a luta pela democracia na década de 80. Isso culminou em um ciclo político vitorioso iniciado por Lula e Dilma. De fato, é uma responsabilidade muito grande. Gerações de homens e mulheres deram a vida para tentar construir o Brasil que nós acreditamos, tenho consciência das minhas responsabilidades. Tenho que fazer valer o que é necessário para atingirmos o objetivo de erguer um Brasil socialista.



A questão racial nesse partido também merece destaque. Vocês contaram com lideranças negras como Osvaldão, no Araguaia, e hoje têm os principais parlamentares em São Paulo, Netinho e Leci Brandao. Como é o seu olhar para essa questão?


Esses dados que você demonstra conhecer comprovam a representação do PCdoB. Digo mais, apesar de não sermos um partido de grande representação no Congresso Nacional, nós procuramos exatamente expressar quem é o nosso povo brasileiro, o quanto somos democráticos, na medida em que valorizamos as expressões da nossa sociedade, da composição do povo brasileiro, seja econômica, seja social, seja de raça, seja de gênero, sempre valorizando os segmentos que historicamente foram alijados de processos de construção políticas do país. Isso se reflete na composição negra das nossas lideranças políticas, Edmilson Valentin, no Amapá, temos a Olivia Santana, na Bahia, o Edson no Rio Grande do Sul e tantas outras figuras espalhadas pelo país afora. E ainda quadros políticos destacados do partido que são da raça negra, além da juventude, que é uma marca do PCdoB.


A questão de gênero também tem destaque nessa política?

Nós somos, em termos absolutos, a maior bancada feminina do Congresso Nacional. Temos 14 deputados ao todo, dos quais seis são mulheres. Nós estamos no caminho certo, estamos nos preparando para um Brasil real, com toda a nossa vontade política, determinação e convicção de que queremos ser cada vez mais os porta-vozes dos interesses do país. Buscamos representar as ideias, os pensamentos do povo brasileiro, que quer mais democracia, mais igualdade racial, menos preconceito. Quer mais valorização do trabalhador, do papel da mulher, mais desenvolvimento e inclusão social.

"Eu acho que não tem outro caminho que não sejam as políticas afirmativas aliadas a políticas mais gerais. É preciso corrigir as injustiças que fazem parte de um todo para melhorar a situa ção da população negra do Brasil."





O que a senhora acha do sistema de cotas no Brasil? 



Sou favorável, elas têm possibilitado a inclusão dos negros nas universidades. As cotas nas escolas públicas possibilitaram as vagas para os negros, mas houve a cota específica para negros que também proporcionou essa mudança. Eu sou convicta da necessidade das ações afirmativas, porque não há como você resolver problemas seculares sem os saltos qualitativos. Mudanças mais radicais, nas estruturas, não acontecem se não tivermos saltos qualitativos. Se formos esperar mais quinhentos anos para poder chegar em um outro patamar de igualdade, nós não chegaremos a lugar algum.


O que a senhora falaria para uma jovem negra que deseja ter uma carreira de sucesso na política, assim como a senhora?

3 dicas: primeiro é ter perspectivas, acreditar num mundo melhor. Buscar o objetivo, o que acontece por meio de uma construção cotidiana. Segundo, ter compaixão e a capacidade de se colocar no lugar do outro. E terceiro, dedicação para compreender os fenômenos sociais que nos cercam e trabalhar muito. Para mudar o mundo é preciso trabalho, muito trabalho.



FONTE: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/188/na-linha-de-frente-luciana-santos-engenheira-eletricista-por-308802-1.asp#.UzLddoMgIXc.facebook

Nenhum comentário:

Postar um comentário