quinta-feira, 29 de maio de 2014

Senegalenses no Brasil


Na sala da Escola Municipal Angelo Félix Ugione, no Bairro Wosocris, em Criciúma, as tardes de domingo, apesar de não ser um dia habitual de aulas, também são de ensino, mas um pouco mais diferente. Quem senta nas cadeiras da escola são cerca de 20 senegaleses, que saíram do país localizado na África Ocidental, para encontrar no Brasil uma oportunidade de vida melhor. O grupo aprende a língua portuguesa e a matemática básica lecionadas pelo professor Fernando Miguel Neto. As línguas se misturam, os olhos são atentos e a vontade de aprender é bastante aparente.


As aulas oferecidas de forma voluntária iniciaram através da parceria entre o professor Fernando, do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Rio Maina e da direção do grupo escolar. A iniciativa surgiu após o professor, que deixou as salas de aulas para buscar um salário melhor nas vendas, encontrar um grupo de seis senegaleses que queria comprar enxoval, produto por ele comercializado.

“Eles tinham muita dificuldade em entender o que eu estava falando. Para um deles, que sabia um pouco melhor se comunicar em português, disse que era professor e ofereci meus serviços se caso eles tivessem interesse em ter aulas. E esse interesse foi imediato. Eles expuseram que seria difícil achar um horário, já que trabalham praticamente o dia todo, e sugeri o domingo à tarde. Já estamos na quarta aula”, lembra o professor, se referindo à aula de ontem.

Grupo tem interesse em participar

O mais novo da turma tem 17 anos, e o mais velho, 35. A maioria tem em torno de 20 anos, e trabalha em indústrias de alimentos. Parte da turma é do Bairro Wosocris, e outra parte do Bairro Jardim Florença, em Nova Veneza. “Esses eu levo e busco”, diz o professor, acrescentando que tem um grupo de cerca de dez senegaleses também em Nova Veneza, e outros que moram no Bairro Próspera, em Criciúma, com interesse em participar das aulas, mas são impossibilitados por falta de locomoção.

“Eu tenho muito orgulho de dar essas aulas e me emociono muito. Eles são pessoas muito humildes, com vontade realmente de aprender, educados, disciplinados e inteligentes. A Cruz Vermelha realizou uma doação de sapatos recentemente, era bonito de se ver o brilho nos olhos de cada um. Saber que você está contribuindo para que eles possam entender a língua do país a qual escolheram para morar, saber ir a um mercado, a uma farmácia, o nome de uma rua, isso não tem preço”, exclama o professor.

Quatro encontros já foram realizados

As aulas vêm dando resultado. Em quatro encontros, o grupo já conheceu a moeda brasileira (real) e também como usá-la, além do alfabeto, diversas palavras e conjugação de verbos. A língua oficial do Senegal é owolof, mas eles possuem uma cultura bastante rica. Sabem 16 idiomas, dentre eles o francês. O presidente do Conseg do Rio Maina, Ricardo Colombo, adianta que há um projeto em andamento, com a Casa da Cultura de Criciúma, para oferecer aulas de percussão. Essa semana os instrumentos já devem ser comprados. Um grupo será criado, inclusive fará apresentações na próxima Festa das Etnias.

“Eles têm que ter um suporte, uma assistência. Se vierem para cá e não ser instruídos, não ter oportunidades, como um direcionamento para o emprego e educação, ficarão vagando, perdidos, com risco de ingressar na criminalidade. Vamos entrar em contato com as polícias, Civil, Federal e Militar, e quando eles tiverem entendendo o português fluentemente, iremos promover palestras sobre os direitos deles, de alerta e prevenção a tudo que é ilícito”.

Os senegaleses vêm precisando de doações. Roupas, cobertores e móveis são os produtos mais necessitados. De acordo com os voluntários, um meio de locomoção ou outra maneira que possa fazer com que mais gente tenha acesso a essas aulas, será muito importante. “Tem alguns que trabalham domingo de manhã, ou em toda a madrugada de sábado, e vem participar, com entusiasmo. Força de vontade é o que não falta para eles”, conclui o professor Fernando.

FONTE: http://www.atribunanet.com/noticia/senegaleses-aprendem-lingua-portuguesa-por-meio-de-parceria-voluntaria-102768

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