sábado, 24 de janeiro de 2015

Doutorando de Guiné-Bissau morre em Porto Alegre e família busca recursos para voltar ao lar

Estudantes e professores da UFRGS reúnem verba para comprar as passagens da mulher e do filho de Augusto Beteba

Doutorando de Guiné-Bissau morre em Porto Alegre e família busca recursos para voltar ao lar Adriana Franciosi/Agencia RBS

Augusto Beteba ansiava virar doutor no Brasil, voltar a Guiné-Bissau, na África, e melhorar a realidade do seu país natal por meio da educação. O sonho dele transformou-se em pesadelo para a mulher, Paula, e o filho, Abene, nascido há dois anos em Porto Alegre. Aluno do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o economista morreu no dia 8 deste mês, aos 36 anos, deixando mulher e filho sem amparo oficial para retornar à terra de origem.
Desde a morte do marido, Paula pensa apenas em regressar para junto de sua família. Perdida, preocupada com a sobrevivência diária, mal teve tempo de processar a viuvez. Abene — que repete o tempo todo a palavra "pai", uma das poucas que aprendeu — passa os dias vendo desenhos no computador.

A Capes e o Itamaraty informaram não se responsabilizar por familiares de bolsistas e que não há cobertura para o translado do corpo. Augusto teve de ser sepultado em Porto Alegre. 

Indignados com a falta de assistência do governo brasileiro para custear o retorno de Paula e Abene a Guiné-Bissau, os colegas de Augusto na universidade fizeram uma vaquinha e já arrecadaram R$ 6 mil para as passagens (o total necessário são cerca de R$ 7 mil). Flávio Comim, orientador da tese de Augusto, desabafa:
— É chocante como uma situação inesperada dessas acontece e não há garantias de nada. Fica um vazio institucional. O governo deveria ter uma previsão orçamentária para esses casos excepcionais.

Os amigos da Igreja Assembleia de Deus também ajudam mãe e filho, inclusive com cestas básicas e custeio do aluguel. Os dois são beneficiados pelo Bolsa-Família e por um auxílio da prefeitura.

Augusto e Paula, de 22 anos, casaram-se em 12 de junho de 2010, um semestre depois de ele chegar à Capital para o doutorado. Conforme o prometido, ele retornou à África nas férias, celebrou o matrimônio e trouxe a mulher. Abene nasceu em maio de 2012, no Hospital Fêmina. Um ano depois, Augusto adoeceu. Complicações renais deixaram-no dependente de hemodiálise e obrigaram-no a postergar a tese. No mês passado, foi internado na Santa Casa. Não resistiu à infecção generalizada.


Vender a mobília para recomeçar
A bolsa oferecida a Augusto pela Capes, que previa até quatro anos de remuneração para doutorando, encerrou em fevereiro de 2014. Acometido pela doença, Beteba conseguiu prorrogar o prazo de entrega do seu trabalho junto à UFRGS, permanecendo no país sem ordenado.
Paula sabe que há uma campanha para ajudá-la, mas não faz ideia de quanto foi arrecadado. Não conseguiu nem projetar o que levará consigo na mala, temendo pagar excesso de bagagem. Espera vender a mobília e ter dinheiro para recomeçar a vida.
— Não sei o que vou fazer daqui para a frente. Mas estar perto dos meus pais já está bom. Estou com muita saudade — diz.
Quando deixou sua terra natal, Augusto coordenava a Faculdade de Economia da Universidade Lusófona, em Bissau (Guiné-Bissau). Antes, havia feito graduação e mestrado em Economia na Voronezh State Technological Academy, em Voronezh (Rússia). Queria voltar a dar aulas em seu país por julgar que só o estudo seria capaz de transformá-lo e permitir melhores condições de vida ao povo.
As dificuldades enfrentadas pela família Beteba alertam para as condições encontradas pelos estudantes de mestrado e doutorado estrangeiros no Brasil. Atualmente, são cerca de 400 alunos na mesma modalidade de Augusto. Muitos deles com família acompanhante.
Os problemas de saúde do guineense só começaram perto de ele completar dois anos do doutorado. Até então, dedicava-se dia e noite aos estudos na universidade e cumpria com todos os trabalhos acadêmicos necessários.
Devido à fraqueza, às dores e às internações constantes, deixou de obedecer aos prazos e, após os quatro anos acordados com a Capes, parou de receber a bolsa mensal. Para sobreviver, era pago por alguns trabalhos que fazia em grupos de pesquisa na universidade. Quando conseguia, a mulher Paula fazia faxinas.
Ela concluiu o Ensino Médio em Porto Alegre e fez curso de informática. Como Abene é brasileiro, conseguiram cadastramento no Bolsa-Família e mais um benefício mensal da Prefeitura de Porto Alegre para famílias em vulnerabilidade social.
Segundo a Capes, foram pagas 48 parcelas no valor de R$ 2,2 mil enquanto esteve vigente a bolsa de Augusto. O órgão informou ainda que não foi avisado dos procedimentos médicos aos quais Augusto foi submetido, ao contrário do que diz o professor Flávio Comim, seu orientador.
Segundo o professor, Augusto ainda precisaria de ao menos um ano para finalizar a tese, cujo título seria Desenvolvimento Humano como Eliminação da Pobreza dos Jovens e a Fragilidade Institucional na África Ocidental.
A Capes informou que, assim como não oferece cobertura quanto ao traslado do corpo de estrangeiro, também não haveria verba para repatriar o corpo de algum brasileiro em viagem ao Exterior. A recomendação do Itamaraty é que, antes de embarcar, seja providenciado um seguro-saúde.
Indignado, o professor prega que deveria haver uma mudança neste sentido:
— É uma vergonha que, como país, não cuidemos direito de nossos estudantes que vêm de fora. Recebemos muitos de países mais pobres do que o nosso, que ficam vulneráveis, com família, filho pequeno. É muito triste.


Saiba mais sobre as bolsas
— Augusto fazia parte do Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG) da Capes, vigente há mais de 30 anos no Brasil. Atualmente, são 400 bolsistas ativos nessa modalidade
— O programa é executado em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, o responsável pela emissão da passagem de retorno do bolsista ao país de origem. A passagem de vinda foi paga apenas para Augusto, assim como a de regresso estava programada
— A Capes esclarece que, para alunos do Exterior, a assistência médica fica a cargo do Sistema Único de Saúde (SUS). Para os brasileiros com bolsas no Exterior, existe um auxílio-saúde
— Não há restrições por parte da Capes para que os bolsistas viagem com seus familiares, já que as despesas relativas à vinda de familiares ficam a cargo do bolsista.
— Em qualquer modalidade de bolsa da Capes, questões relacionadas à saúde são analisadas caso a caso, mas, para isso, é necessário comunicado oficial do bolsista, do programa de pós-graduação ou dos familiares. O órgão disse não ter sido avisado sobre a morte nem sobre a doença de Augusto.
Interessados em ajudar podem entrar em contato com Raquel Klaudat, secretária do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS, pelo telefone (51) 3308-4050
FONTE: http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2015/01/doutorando-de-guine-bissau-morre-em-porto-alegre-e-familia-busca-recursos-para-voltar-ao-lar-4685343.html

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