sábado, 27 de junho de 2015

O afrodescendente que conduz a maçonaria brasileira


Grão mestre Marcos José da Silva é o primeiro negro a liderar a maçonaria brasileira. Em entrevista exclusiva, ele lembra que Barack Obama é maçom e comenta o perfil de Joaquim Barbosa

Sionei Ricardo Leão, especial para o Congresso em Foco



O presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, é membro de um segmento maçônico chamado Príncipe Hall, que atua nos estados da Califórnia, Connecticut, Ilinois, Nova York e Carolina do Norte.

A informação é do grão mestre do Grande Oriente do Brasil (GOB), Marcos José da Silva, que lidera no Brasil o segmento mais antigo e mais numeroso desse tipo de organização no Brasil, ou seja, a maçonaria. Marcos da Silva, a princípio o primeiro afrodescendente a exercer esse cargo no país, segundo ele próprio cogita.

O grão mestre, nesta entrevista exclusiva, afirma que a organização que conduz não tem barreiras raciais. Nas palavras dele, a maçonaria atualmente tem o desafio de se comprometer e atuar em relação a temas modernos, como o combate ao vício nas drogas e políticas de igualdade socioeconômica.

Segundo Marcos da Silva, a maçonaria ordem precisa divulgar mais o que faz para dar fim a distorções e preconceitos, que surgem na maior parte das vezes pelo desconhecimento de certos setores da sociedade, argumenta. “Temos que dar o exemplo, a nossa competência está em falar uma coisa e não fazer outra, a fim de que honrosa e respeitosamente as pessoas digam ‘aquele é o maçom’”, conclui.

Confira a íntegra da entrevista:

Sionei Ricardo Leão: O Grande Oriente já teve outro soberano afrodescendente?

Não tenho conhecimento. Agora para mim, o fato de ter sido escolhido para essa função é motivo de uma alegria, de uma satisfação, pois demonstra que a maçonaria não se move pelo preconceito.

Nunca houve um episódio racial em relação a sua pessoa na ordem?

Olha, certa vez, estava ouvindo um de nossos membros dizer ou reivindicar que a maçonaria deveria ter um grão mestre negro. Daí perguntei para ele e eu, sou por acaso ariano? Ele teve um espanto. Quer dizer, não tinha se dado conta da questão.

Mas racismo, preconceito?

Não, não experimentei. Veja bem, é importante ressaltar que é um preceito de que para se tornar maçom, você precisa ser uma pessoa livre e de bons costumes e não alimentar ou concordar com qualquer tipo de preconceito, seja de raça seja de natureza socioeconômica.

A seu ver, a sociedade tem essa percepção da maçonaria?

Provavelmente não, porque de modo geral se desconhece o que é a maçonaria. Na verdade, em essência muitas pessoas pensam que a ordem é uma religião, o que faz que surjam interpretações completamente diferentes do que é a realidade.

A concepção de que a maçonaria é composta por pessoas aquinhoadas economicamente não seria um fator para dificultar ingresso de negros?

Não, pelo seguinte. Pelas nossas diretrizes, a ordem procura pessoas que se enquadram num dado perfil que estabelecemos, independentemente de posição social e étnica. Isso tem a ver com requisitos de conhecimento, e não monetários. Aqui em resumo você pode estar sentado lado a lado de um artífice, de um diplomata ou de uma pessoa pós-graduada. Ou seja, temos vários matizes. O que se busca é um perfil, é isso é o que nos importa.

Mas, por outro lado, só se ingressa na maçonaria por convite. Isso não é uma questão que pode levar a restrições de vários tipos?

O que definimos é que para ser convidado o candidato tem que ser uma pessoa honesta, séria, comprometida com os valores da família e ideias nobres. Da mesma forma tem que ser alguém de inciativa na vida.

Qual a razão de certas resistências ou de contestações que afetam a maçonaria?

A maçonaria durante muitos anos ficou silente por uma interpretação, um conceito que dizia que não devíamos demonstrar o que fazíamos, vejo nessa postura uma falha. Entendo que devemos divulgar para incentivar e influenciar outras iniciativas.

O que é hoje a maçonaria no Brasil?

Em termos nacionais, ela está renovando concepções e ações, estamos participando mais vigorosamente dos desafios do país. Por muitos anos, estivemos afastados de questões dessa envergadura. Hoje reconhecemos que enfrentamos problemas graves como a questão do vício nas drogas. Há também o fator de conferir acesso igualitário a todos os cidadãos aos benefícios sociais e econômicos. Temos que derrubar preconceitos e isso está acontecendo. Houve períodos em que a maçonaria esteve envolvida na derrubada de regimes autoritários de tiranias, empenhada na luta pela liberdade e o respeito aos valores republicanos. No contexto atual, a compreensão é que se deve zelar pela manutenção dessas conquistas democráticas.

Internacionalmente qual é diretriz?

Em termos mundiais, ela também marcha nesse sentido, aparentemente em cada país a maçonaria é diferente, mas na bem da verdade não é bem assim, porque os problemas e desafios se assemelham. Por exemplo, nos Estados Unidos da América temos a questão aguda do racismo, mas que deve ser somada ao desafios porque passam os judeus e outros grupos étnicos. Se analisarmos de forma mais detida, isso ocorre em vários países.

Você citou os EUA, nesse país, há uma segmento da maçonaria organizado entre os afroamericanos?

É a potência Príncipe Hall.

O que vem ser isso, uma potência?

É um segmento maçônico composto, exclusivamente por afroamericanos, que é uma questão histórica, mas não estão em todos os estados.

O atual presidente dos EUA, Barack Obama, é membro da Príncipe Hall?

Segundo consta sim, aliás, ele próprio já declarou isso.

Como ela se organiza?

Ela atua nos estados da Califórnia, Connectcut, Illinois, Nova York e Carolina do Norte.

Não está presente nos demais estados por uma questão racial?

Pode ser que seja isso, mas não falo com domínio. Não tenho essa informação.

A Príncipe Hall tem relacionamento com o GOB?

Ainda não, mas isso poderá acontecer, temos intenção de que isso ocorra.

Qual seu pensamento sobre as relações raciais no Brasil?

A meu ver, existe uma desigualdade que é fruto de uma herança de muito tempo. Do meu ponto de vista, vigora uma certa dissimulação muito aguda nessa questão. Então, muitas das vezes é difícil mensurar. As pessoas de dizem libertas de preconceitos o que não é bem a verdade.

Como senhor avalia a trajetória de alguém como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa?

É alguém que se projetou e conquistou algo de muito valioso, que é respeitado pela população brasileira em razão de sua postura, e pela sua honestidade e sinceridade de propósitos.

Mas que muitas vezes foi criticado por uma conduta irascível.

Veja bem. Vamos cogitar de quantas barreiras, quantos desafios quantas dificuldades, ele teve que enfrentar para chegar onde chegou. Em casos assim, muitas vezes, as pessoa se sente isolada, teme que determinados contatos venham a ser danosos para o exercício do cargo em que está. Pode ser o caso dele. No entanto, se viesse a se candidatar a alguma função eletiva, seria competitivo.

Como foram suas origens familiares?

O primeiro bolsista da Academia do Comércio no Rio de Janeiro foi meu tio, Braz José da Silva. Ele conquistou tudo na vida. Era brilhante, ele dizia que se nós tivéssemos fibra poderíamos chegar onde ele chegou.

Ele foi seu modelo?

Ele e meu pai, que foi um dos primeiros afrodescendentes a passar no concurso do Banco do Brasil, em 1935, foram pessoas muito inteligentes e com uma vontade de crescer enorme. Penso que é por aí. Nós temos potencialmente muitos Joaquins Barbosa no Brasil, embora nem todos venham a se destacar como ele. A esse respeito, penso que a liderança tem mais valor quando é conquistada em lugar de ser atribuída. Esse é um valor que deve ser cultivado e incentivado.

Para encerrar.

Quero dizer que a nossa responsabilidade é com o país. Devemos dar o exemplo, a nossa competência está em falar uma coisa e não fazer outra, a fim de que honrosa e respeitosamente as pessoas digam “aquele é o maçom”.

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FONTE: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/o-afrodescendente-que-conduz-a-maconaria-brasileira/

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