sábado, 11 de julho de 2015

Consulesa da França no Brasil fala de racismo e igualdade em noite receptiva

“Meu sonho é que um dia a cor da pele seja um detalhe, assim como é a cor do cabelo”. Alexandra Baldeh Loras

A Consulesa da França no Brasil, Alexandra Baldeh Loras surpreendeu com sua simpatia e engajamento na questão da luta contra as desigualdades raciais  ao discursar para um público seleto,  que compareceu à recepção especialmente organizada pela Sociedade Negra Paulistana, na sede do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, no último dia 25 de junho.  O  evento, que teve como anfitrião Jean Nascimento e assessoria do jornalista, Carlos Romero,  contou com as presenças do Secretário  Municipal da Igualdade Racial, Maurício Pestana; Coordenador do Conselho de Participação da Comunidade Negra, Mário Antonio Zito Alvarenga; Presidente do Centro Cultural Africano, Otunba Adekunle Aderonmu; Maestro Casemiro; Padre Enis e a cantora Izzy Gordon. As personalidades ocuparam a mesa principal e fizeram saudações à consulesa. Figuras importantes de vários segmentos compareceram à recepção, entre elas,  o ator Sebastian Fonseca, a cantora Duda  Ribeiro; a artista plástica Malema, o rei momo do carnaval de São Paulo – 2015, Valter Pinto  e o diretor da  Vai-Vai, Fernando Penteado, a escola de samba que homenageará a França em 2016.
18976806820_6b2bf37360_z
Os representantes das irmandades negras de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos;  Irmandade de São Benedito da Casa Veerde e Irmandade de São Benedito da Praia Grande também levaram saudações especiais à homenageada.
Nascida no gueto parisiense de Corbeil-Essonnes, de origem muçulmana e judaica, a jornalista Alexandra Baldeh Loras, 37, vive em São Paulo  há dois anos,  e  é casada com o diplomata Damien Loras, Consul Geral da França no Brasil,  com quem tem um filho. “Sou a única negra de uma família de cinco irmãos”, disse ela.
18541856664_a4af89eb03_k
Durante sua apresentação, Alexandra,  falou sobre um assunto que domina, que é a construção da imagem negativa da pessoa negra diante de um mundo de referências eurocêntricas. “De geração em geração fomos condicionados a pensar que o homem era superior a mulher, mas também que o homem branco era superior ao homem negro. Confesso que eu sofro da Síndrome do Impostor. É a Síndrome do Impostor que me habita, na minha própria identidade, toda vez que sou questionada sobre a legitimidade de ser francesa. Sou questionada a todo tempo se sou mesmo francesa, por causa da minha cor”, explicou.
Mestre em Comunicação, Formada pela Sciences Po (L’École Livre de Sciences Politiques), de Paris, instituição onde se forma a elite política da França, ela disse que em sua tese descobriu dados importantes da forma como em seu país, assim como em diversos  países, os negros foram acostumados a se sentirem menores. “Existem muitos veículos no marketing mundial que vende a representação da França a partir da imagem de Brigitte Bardot, mas essa não é a verdade. Vejam que eu não tenho nada a ver com ela. A verdade é que a França tem 400 anos de escravidão e 300 de colonização em sua história. Ela só fica atrás do Brasil quando falamos em número de escravos. Todos pensam que os Estados Unidos tiveram mais escravos negros, mas não é verdade. Os Estados Unidos tem 13 % de negros, sendo que no Brasil temos mais de 50%. A França tem o segundo lugar atrás do Brasil como o país que teve o maior número de escravos”.
A consulesa foi muito aplaudida quando fez sua análise sobre a questão do racismo, exemplificando a sua própria história de vida e comparando a realidade dos  afro-brasileiros com os problemas das minorias que vivem na França. “No geral nós negros não estamos onde gostaríamos de estar, mas não estamos mais onde estivemos. Ainda temos muito a fazer para resgatar a auto-estima, principalmente de nossas crianças. Veja a mídia, onde existe uma linguagem muito subliminar de que é natural, normal que o privilegiado seja sempre a pessoa branca. E que tudo que é negativo está ao redor dos negros; É difícil crescer numa sociedade que só incentiva coisas negativas ao redor dos negros. Para entender o problema precisa saber de onde este problema vem. Claro que é  da escravidão.  Nossa verdadeira história ainda não foi reconhecida”.
Ela lembrou ocasiões de enfrentamento aos comportamentos racistas aqui no Brasil, mesmo sendo casada com o Consul Geral da França. “Diziam para mim que não existia racismo no Brasil. Que aqui não existia racismo de pele, mas sim um racismo econômico-social. Mas eu mesmo sofro com o racismo aqui no Brasil. Por exemplo, o protocolo francês exige que nos eventos eu fique na recepção da residência consular, para dar boas vindas aos convidados. Foram várias vezes, nestes eventos sociais, que eu fui confundida como recepcionista. Mas mesmo se eu fosse recepcionista  não gostaria de ser invisível. Quando vou a certos lugares muitas vezes tem um olhar pesado, até eu ser apresentada e aí sim, eu vejo que ao saber do meu título, a pessoa me coloca em outra caixinha, onde legitima o respeito e até muda o relacionamento. Mas isso me incomoda porque somos todos seres humanos”, contou.
Sobre a questão dos refugiados, a consulesa também se posicionou e deu outra lição de vida. “Eu cresci em um gueto parisiense, única negra de cinco irmãos. Meu pai era um imigrante. Hoje vejo que os imigrantes são tratados como cidadãos de segunda classe, quando na verdade não são. Muitos deles têm família que bancam suas viagens para cá, para estudarem. Eu trabalho na Missão Paz, ajudando no trabalho com os africanos e com os haitianos. Vejo neles muito potencial. São formados, inteligentes e falam até vários idiomas, não podem ser tratados como diferentes. Isto me  machuca muito porque meu pai era imigrante e quando chegou na França chegou a morar na rua. Hoje eu faço este trabalho tentando resgatar esta minha própria história”.

“O negro não é mais e nem tão pouco é menos,  somos todos cheios de talentos e de potencial enorme. Precisamos trabalhar nossa diversidade e desconstruir tudo isso. Meu sonho é que um dia a cor da pele seja um detalhe, com o é a cor do cabelo”, provocou a consulesa.

19167874021_2ef702f3c9_z19168023691_b2682db161_k19158684962_61326ff148_z18978286909_b4d6ac4b94_z18976828440_b00e33b7eb_z18976804378_f4e8381eba_z (1)18976795820_e9411a233c_z18976756760_7220866461_z18976675180_e4d0abe4ab_z18541943254_81622e34af_z18541856664_333f8faa49_z18541814674_feca089725_z18541922864_c6d8273b30_z
FONTE: http://www.portalafricas.com.br/v1/consulesa-da-franca-no-brasil-fala-de-racismo-e-igualdade-em-noite-receptiva/

Nenhum comentário:

Postar um comentário