sábado, 8 de agosto de 2015

Itália tem time de futebol formado só por imigrantes

A exemplo de outros países da Europa, a intolerância e a xenofobia marcam presença na Itália – e o futebol é um dos palcos dessas manifestações. É comum ver alas radicais de torcidas organizadas entoarem gritos fascistas em estádios, jogadores comemorando gols com referências fascistas. Enquanto isso, imigrantes que vieram para o país ainda crianças ou na adolescência sofrem ataques racistas em pleno campo – como o atacante Mario Ballotelli, presença constante na seleção italiana, que é filho de ganenses.
Mas em Rosarno, cidade de 15 mil habitantes situada na região da Calábria, um padre está ajudando a mudar a história de imigrantes africanos ligados ao futebol. Ele montou um time que, em menos de dois anos filiado à Federação Italiana, já chegou à oitava divisão do campeonato nacional.
Uma ideia salvadora e incrível
Em 2010, dois negros foram assassinados e diversas pessoas foram feridas num protesto em Rosarno. Diante desse fato, o padre local Roberto Meduri, visando diminuir as tensões na cidade e dar uma oportunidade de esperança aos migrantes que chegavam à região, criou em 2013 o time de futebol Koa Bosco – sigla que em inglês significa “Cavaleiros do Altar”. No plantel, jogadores que saíram de países como Senegal, Costa do Marfim, Togo e Sudão, entre outros.
Koa Bosco, time de futebol amador da Itália, formado só por imigrantes. Crédito: Divulgação/ Koa Bosco
Koa Bosco, time de futebol amador da Itália, formado só por imigrantes.
Crédito: Divulgação/ Koa Bosco
“Esse projeto era dirigido aos jovens para ajudá-los a se sentirem cidadãos. No princípio, não acreditavam que fosse funcionar porque tinha medo de se sentirem vulneráveis. Mas agora estamos felizes. Recuperaram alguma dignidade e se sentem orgulhosos quando são cumprimentados na rua”, disse o padre Meduri disse ao jornal Público, de Portugal.
Os jogadores ainda se sustentam colhendo laranjas e moram em tendas, mas o futebol traz um novo significado para os migrantes. E o Koa Bosco teve uma grande conquista recente, ao vencer o Atenogenese por 2 a 1 no play-off de promoção do Grupo G da terceira categoria do campeonato regional da Calábria. O gol do senegalês Mbaye Mansour no começo do segundo tempo selou a conquista.
O triunfo rendeu a promoção do time para a Segunda Categoria (ainda amadora), mas que equivale à oitava divisão do futebol italiano. O time pode ainda star longe de grandes clubes como Milan, Juventus, Roma e Internazionale, mas pouco a pouco vai conquistado seu lugar no futebol do país.
“Sem dúvida foi uma das maiores emoções da minha vida ver esse esforço deles e com isso essa vitória tão improvável”, comemorou o técnico do time, Domenico Mammoliti, em entrevista ao canal CNN, dos Estados Unidos.
O reconhecimento veio de uma forma rápida. Entre os fatos está a Juventus, tradicional clube da Itália e atual campeão nacional, que levou o time de Koa Bosco a conhecer as instalações da equipe em Turim. E a federação Italiana usou o time ainda para uma campanha contra o racismo no futebol – ação encarada como oportunismo da entidade em cima dos migrantes.
Obstáculos
As vitórias em campo ainda não são completas devido ao racismo e a xenofobia que os jogadores ainda sofrem. Em março passando, um jogo contra o Vigor Paravati teve que ser paralisado devido a ofensas racistas contra o time, seguida de uma batalha campal eu incluiu pedras atiradas contra os atletas e oito expulsos.
“Nosso problema é que os árbitros aqui em Bosco sempre decidem contra a gente. Sempre pensamos em vencer, mas é difícil”, diz Ali Trauri, um dos jogadores do Koa, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.
Mammoliti sonha em, um dia, juntar pessoas de todos os povos à equipe, incluindo brancos, mas sabe que não será nada fácil. “Os imigrantes estão pagando o preço da desinformação e ignorância porque a Itália está no meio de uma crise e culpamos o homem negro”, refletiu o técnico para a CNN.
Mas os jogadores têm resistido a essas objeções com disposição. Mas muito além disso, eles conservam a esperança de conseguir fazer o time crescer e vencer mais do que campeonatos: derrotar a ignorância e o preconceito que ainda permeia a Velha Bota e outros países da Europa e do mundo.
FONTE: http://migramundo.com/2015/08/08/italia-tem-time-de-futebol-formado-so-por-imigrantes/

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