sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Pernambuco na rota dos sírios

Custos como transporte, alimentação e hospedagem ficam por conta de dezenas de voluntários e entidades da sociedade civil


Pernambuco desponta como um novo caminho para dezenas de imigrantes sírios que buscam recomeçar a vida. São vítimas da guerra que assola os países do Oriente Médio. A rota de fuga do terror e sofrimento passa pelo eixo Rio-São Paulo que, somado a outras bases, já abriga mais de 2,5mil refugiados. No Recife e Região Metropolitana, cerca de 40 refugiados, entre homens, mulheres e crianças, são esperados até dezembro.
Os custos como transporte, alimentação e hospedagem ficam por conta de dezenas de voluntários e entidades da sociedade civil, que se articulam para promover essa verdadeira ponte de solidariedade. O primeiro passo foi dado pela bancária Bruna Guedes, de 26 anos, que segue na expectativa de receber na própria casa, já no próximo mês, um casal e um bebê. A corrente do bem agora busca aliados.
“Cada pessoa pode contribuir de uma forma diferente. Alguns podem trazer alimentos, remédios, uma oportunidade de emprego ou, ainda, ajudá-los comas dificuldades coma língua portuguesa. São pessoas como nós, que tiveram suas histórias destruídas e agora precisam partir do zero”, diz Bruna, que abriu as portas do sítio onde mora, em Igarassu, na RMR, para acomodar os irmãos desconhecidos. Ela vive com o filho Benjamim, de 2 anos e meio. Bruna já separou um dos quartos, alguns móveis e a roupa de cama para oferecer o abrigo.
“Já participava de grupos de ajuda a outros segmentos, mas me senti encorajada a fazer mais. Ainda não sei muito sobre eles,mas sinto que tornarão os meus dias mais felizes”, afirmou. Bruna passou a manter contato com várias entidades, a exemplo da Caritas Diocesana, em São Paulo. Por lá, ganhou o reforço de uma estrangeira, Marah, há quase dois anos na cidade. “Como não entendo a língua árabe, ela passou a traduzir e relatar as dificuldades que estavam passando”, conta.
O Caminho
No caminho até a metrópole, oriundos de cerca de 30 pontos atingidos pelas bombas,muitos percalços para o sírio. A maioria cruzou a fronteira, passando pela embaixada brasileira no Líbano e ainda vencendo uma temporada nos Emirados Árabes. A escolha pelo Brasil diz respeito a regras menos rígidas para receber refugiados de guerra, principalmente quanto à emissão de vistos. Depois de ter a casa bombardeada, tendo os laços com o seu povo completamente despedaçados, a jovem Marah Khami, 23 anos, se viu obrigada a deixar Damasco, capital da Síria.
Os conflitos políticos e a intolerância de grupos extremistas disseminavam a violência, situação nãomuito distante da atual. Ela chegou em2013 a São Paulo, ainda assustada coma imensidão do saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Estava acompanhada dos pais e do então noivo, Rida, trazendo em comum na bagagem a vontade de escrever uma nova história. Hoje ela está casada e espera o primeiro filho, o pai conseguiu um trabalho de pedreiro e o marido agora domina panelas e temperos, na cozinha de um restaurante.
“Ainda enfrentamos dificuldades, mas já foi bem pior”, diz Marah, ainda sem total domínio da língua portuguesa. Ela conta que, antes de a família conseguir um visto para o Brasil, teve que se abrigar em uma espécie de campo de refugiados, no Egito. “Eram pessoas amontoadas, um lugar sujo e escuro. Logo, tivemos que ir embora”, lembra. As primeiras experiências no Brasil não foram tão positivas. A família depositou a confiança em um homem que se passava por árabe e oferecia ajuda. “Ele acabou roubando parte do nosso dinheiro”, revelou. A nova vida na capital paulista, em uma cultura bem oposta, não foi fácil. Após muitas privações, eles conseguiram alugar um imóvel. Através de uma página criada no Facebook, Marah teve as portas abertas para receber ajuda. “Estou feliz por aqui, mas ainda aceitaria voltar a minha terra se houvesse paz”, pondera.
Braços Abertos
Desde o início da crise na Síria, em2011, o Brasil vem concedendo refúgio amais sírios do que os principais portos de destino de refugiados na Europa. Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), 2.077 sírios receberam status de refugiados no País, até agosto deste ano. O perfil varia bastante, indo de camponeses a empresários, leigos e doutores.De acordo coma Superintendência da Polícia Federal em Pernambuco, ainda não há registro oficial de sírios no Estado. Atualmente, existem 15 pedidos de refúgio em tramitação no órgão, porém advindos de cidadãos da Guiné Bissau. “Ao dar entrada no requerimento, devem preencher um questionário informando o motivo da sua chegada. Qualquer documentação que já possua será considerada”, explica Giovani Santoro. O prazo e resposta varia em torno de um ano, fator que não impede a sua livre estada, inclusive para admissão em postos de trabalho.
Contribuições
Estamos organizando listas e articulando pessoas dispostas a ajudar. É um trabalho minucioso e que precisa de gente comprometida a mantê-los por tempo indeterminado. Até que possam caminhar com suas próprias pernas”, ressalta Bruna Guedes. Quem também abraçou a causa oi a fisioterapeuta Daniela Lins, de 24 anos, que e uniu a Bruna para o início de uma campanha para o recolhimento de alimentos e todo o tipo de donativos. Dessa forma, roupas,material de higiene pessoal,fraldas, brinquedos e até móveis ou eletrodomésticos são bem-vindos. Para facilitar, dois pontos de arrecadação foram abertos, sendo um em Olinda e outro no Centro do Recife.
“É uma luta que não podemos segurar sozinhas. As pessoas chegam até nós, perguntam e se dispõem a fazer mais. Porteiros distribuem panfletos nos prédios e outros têm espalhado a ideia no trabalho, escolas ou faculdades”, revela. Segundo ela, cerca e 10 pessoas já sinalizaram o interesse em receber os estrangeiros.
Evento
A vontade de ajudar pretende ir além. Na segunda quinzena de outubro, um festival está sendo organizado no parque da Jaqueira, na Zona Norte. A ideia é de que diversos profissionais ofereçam seus serviços, cobrando valores irrisórios. Todo valor arrecadado será revertido para a causa síria. No leque de opções está a terapia holística, shiatsu, reiki, medicina ayurveda e massoterapia. “Será um canal para reunir gente dobeme assimconseguir ampliar os resultados”, reforça Bruna, que também coordena a organização Mãos Unidas, voltada a causas humanitárias.A programação também deve contar com shows, através de parcerias com artistas locais que se comprometeram a não cobrar cachês.
Como ajudar
Informações: (81) 97312.3677 e 98491.4377
Para doações emdinheiro Agência 13617,Conta 16903722,Banco doBrasil
Pontos de arrecadação de donativos:
- CasaMecane: Av. Visconde de Suassuna, 340, Boa Vista, Recife
- Xinxim da Baiana: Av. Sigismundo Gonçalves, 742, Olinda

FONTE: http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cotidiano/noticias/arqs/2015/09/0304.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário