domingo, 29 de novembro de 2015

Escolas não estão preparadas para trabalhar o preconceito, diz professora

Tânia Cristina de Carvalho atua como educadora há 27 anos.
Ela é sexta entrevistado em série pelo Dia da Consciência Negra.


Professora Tânia Cristina de Carvalho, de 53 anos (Foto: Tânia Cristina de Carvalho/Arquivo pessoal)


"É fato que algumas escolas não estão bem preparadas para trabalhar a conscientização do preconceito racial". A observação é da Tânia Cristina de Carvalho, de 53 anos, que atua como professora há 27. Ela é moradora de Barra Mansa, no Sul do Rio de Janeiro, mas trabalha em uma escola da rede pública de Resende, também no Sul do Rio.
Tânia é a sexta entrevistada do G1 em uma série de reportagens pelo Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, que procura abrir espaço para moradores da região negros ou ligados à cultura africana, além de debater o preconceito. Como professora, ela acredita que o governo precisa se preocupar mais com as causas do negro no ambiente educacional, além de abordar nos livros didáticos "questões que levariam o aluno a refletir e respeitar cada um".
"Em pleno século XXI, nós imaginávamos que a situação relacionada ao preconceito racial seria diferente. O preconceito está aí presente e visível em todos os setores públicos e privados, dentre eles no setor educacional. É perceptível que as informações são bem acessíveis, temos  hoje a tecnologia como apoio, mas eu faço uma pergunta. Quem quer comprar a causa do negro? Quem quer falar sobre o negro?", indagou.
Para Tânia, mesmo que nas escolas o trabalho da questão racial seja a longo prazo, é preciso acreditar na mudança e lutar por ela a fim de que "o negro seja valorizado e tratado com igualdade". Segundo a educadora, ela busca debater o preconceito em sala de aula. É um assunto que conhece, porque foi vítima de racismo tanto na vida pessoal como profissional. Conta que, no início da carreira, na hora de buscar um emprego, recebeu um tratamento diferenciado — e negativo — por ser negra.

"É muito comum ver e ouvir como os amigos tratam os outros negros. De alguma forma, sempre criam apelidos negativos, que remetem a um personagem negro conhecido. Os alunos alvos sempre abaixam a cabeça, pois ainda não sabem como reagir e não conseguem ter argumentos para tais 'brincadeiras' ", relatou.De acordo com a professora, na escola atual, com os colegas, não sofre preconceito. Ao menos não de forma indireta, pois "sempre surgiu piadas que remetem racismo". O que ela observa com mais frequência são "tratamentos diferenciados entre colegas com alguns alunos negros".

A educadora garante que procura intervir nesses episódios através do diálogo e da conscientização, até "para que o aluno saiba se defender e não ficar triste".
"O preconceito se inicia nas pequenas coisas sim e se torna um grande obstáculo, a ponto de causar barreiras psicológicas na vida do cidadão negro. Por este motivo se faz necessário que as pessoas procurem ler e respeitar o direito do outro. E é muito importante ter cuidado com as palavras, pois as mesmas podem inibir e bloquear uma pessoa para sempre. Muitas das vezes, nós, vítimas do racismo, sofremos com comentários maldosos", disse.
Cota é 'reparação'
Para a professora, a cota de vagas nas universidades é uma "reparação" para a falta de espaço que o negro teve no passado, quando foram escravizados e não tiveram a cultura nativa respeitada.

"Nós, da raça negra, não somos menos capazes cognitivamente que outras raças, mas infelizmente não temos o nosso reconhecimento e tratamento igual. Não precisaríamos passar por esta humilhação de ter que lutar por uma cota, mas, se não usar a cota, quando os negros terão serão respeitados e terão um cargo melhor na sociedade?", questionou. "Quantos negros existem nas repartições de cargos elevados? Quantos jovens finalizam o ensino médio? Quantos negros são convidados a fazer uma propaganda de TV? Nas novelas, quando são convidados a fazer um papel, sempre é de submissão".
Tânia acredita que quando as pessoas perceberem a realidade do país e se conscientizarem de seus atos, o preconceito começará a ser desconstruído. Segundo ela, "a palavra de mudança é respeito".
"Desconstruir o preconceito racial é nos colocarmos no lugar do outro. É ler, é estudar para entender e ter consciência e coragem para ajudar o povo discriminado", disse. "Desconstruir o preconceito é a pessoa não silenciar quando é tratada com descaso, como se fosse inferior, sem valor. É preciso dar um grito de liberdade!".
FONTE: http://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2015/11/escolas-nao-estao-preparadas-para-trabalhar-o-preconceito-diz-professora.html

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