sábado, 27 de fevereiro de 2016

Editorial: A China em Pernambuco

Harmonia faz parte da filosofia oriental. Por isso que os chineses querem exportar também sua cultura.


Potência econômica deste século 21, a China vai ampliar sua presença em Pernambuco. Hoje à noite, o embaixador do país no Brasil, Li Jinzhang, recebe convidados em um hotel na Praia do Paiva para inaugurar oficialmente o Consulado Geral no Recife, que será comandando pelo diplomata Li Feiyue. Será a quarta base chinesa no país – além da embaixada em Brasília, só existem representações diplomáticas no Rio de Janeiro e em São Paulo - com abrangência para todo o Nordeste, com exceção da Bahia.

A capital pernambucana entrou no radar chinês por sua localização estratégica e importância cultural e econômica no Norte e Nordeste. De Brasília, o embaixador Li Jinzhang já havia ressaltado: “O Recife é uma das cidades mais importantes do Brasil e, historicamente, foi o primeiro centro político e econômico do país. Além disso, é uma cidade muito bonita, onde o moderno e histórico convivem em perfeita harmonia”.

Harmonia faz parte da filosofia oriental. Por isso que os chineses querem exportar também sua cultura. Desde 2013 funciona na Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP/UPE) o Instituto Confúcio para o ensino na língua chinesa, o sexto do Brasil. Do idioma para a cultura é apenas um passo. Daí para o consumo, é mais um pulo.

Estima-se que a comunidade chinesa no Recife seja formada por aproximadamente 2,5 mil pessoas. O bairro de São José tornou-se a parte mais visível desta presença, uma verdadeira Chinatown, com lojas de artigos baratos, batizados pejorativamente de xing-lings. Uma comunidade fechada, sem dominar a língua portuguesa, que com o novo consulado pode estreitar mais relações com os pernambucanos.

Desde 2014, o experiente diplomata Wang Xian – com mais de 30 anos de carreira em países como Portugal e México e em Macau (território administrativo chinês) – fez visitas de cortesia a autoridades locais, ao mesmo tempo em que prospectava possibilidades econômicas. No Tribunal de Justiça de Pernambuco, Wang Xian quis conhecer como funcionava o sistema prisional do estado. Empresas do seu país que venham se instalar podem utilizar a mão de obra carcerária local.
A representação diplomática também vai ajudar os empresários locais que descobriram que o que vem da China não é só falsificação e contrabando. A Federação de Comércio de Pernambuco (Fecomercio) já fez missões levando empresários para o país. Mais de 200 interessados resolveram ver in loco o que existe do outro lado do muro.

A presença chinesa em Pernambuco teve início na década de 1920, a partir da Guiana inglesa. Na década de 1970 foi a vez de imigrantes de Taiwan. Nas três últimas décadas, chineses vindos da tríplice fronteira – Brasil, Argentina e Paraguai – chegaram ao Recife para expandir seus negócios, ajudados pela consolidação do Porto de Suape.

Em 1887, o então presidente da província de Pernambuco, Pedro Vicente de Azevedo, publicou relatório no Diario de Pernambuco defendendo a importação de colonos de outros países. Ele criticava os proprietários de terras de não querer contratar estrangeiros, entre eles os chineses, “por falsos preconceitos”.

No dia 12 de fevereiro de 1936, o jornal trouxe uma reportagem a respeito das atividades dos chineses no Recife. A colônia então era formada por 103 homens, que trabalhavam em lavanderias, mercearias e “mosqueiros”. Há 80 anos, foram encontrados dois vendedores de “tistchói”, as quinquilharias, hoje a principal atividade dos novos patrícios. Antes cidadãos da Celeste República, agora os chineses do século 21 em Pernambuco pertencem a um país comunista que não exporta apenas produtos, mas gente para vendê-los também.

FONTE: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/outros/ultimas-noticias/46,37,46,14/2016/02/22/interna_politica,628248/editorial-a-china-em-pernambuco.shtml

Nenhum comentário:

Postar um comentário